Digressões Periféricas

Este é um espaço que se pretende aberto a quem goste de contar histórias e de andar nos turbilhões labirínticos das palavras e das cores como bouquês feitos de lâminas.

sábado, 1 de Agosto de 2009

A LIBERDADE DO VERÃO

No verão podemos brincar. Até mesmo com coisas sérias. A liberdade do tempo dá para pintar onde bem queremos. Neste momento apenas me falta o spray e seria mais uma fazedora de paredes coloridas.
Não importa serem grandes obras para ficarem expostas. O gozo de as fazer é tão importante como cozinhar um bom jantar para os amigos e ficar tempos infinitos numa mesa com restos de vinho e pratos e restos de doces. O verão é mesmo assim. Cada um faz o que mais gosta. E eu gosto de brincar com as cores. Só isso.

segunda-feira, 27 de Julho de 2009

BURRA PENSADORA


O que nós aprendemos na idade em que é suposto sabermos muita coisa, é algo que cada vez mais me leva a desconfiar das histórias que BURRO VELHO NÃO APRENDE LINGUAS.


Pura mentira e maior injustiça ainda. Nem sempre o povo tem razão.


Não sou velha. Digamos que estou a meio do caminho se não houver mudanças bruscas de direcção. Gosto da sensação de conforto desta "meia idade", nem novo, nem demasiado velha ainda, para me serem condenáveis grandes ou pequenas loucuras.


Quando a vida parece estar já arrumada, vem daí a vontade ou a falta dela e aí vamos nós por novos caminhos. Apesar de tudo, a novidade do risco, dá sempre conta das contas da gente e não há nada a fazer : pensar e repensar, agir ou não, no meu caso mudar e zurrar também.


Como fazemos então para escolher, para saber. Como quando tínhamos a idade menor da meia idade, os "ses" são a alma do não e os caminhos desejados ficam na escada ou nos vãos delas e quando nós as descemos ou subimos, aí estão eles a acenar com a mão.


Por isso, a decisão é a melhor parte do conhecimento. Esquecemos o que queremos e apenas ficamos com as vontades e isso sim, apesar das dores das costas e dos óculos de ver ao perto, desejamos coisas que por vezes resultam. Pelo menos tentámos, dizemos nós, os personagens do des-conhecimento e da teimosia.


Tudo porque somos meias idades com muitos conhecimentos mas queremos ser velhos menos resignados. Como os burros, a falar inglês e francês.

quinta-feira, 16 de Julho de 2009

SOAPBOX

SOAPBOX OU CAIXA DE SABÃO
DIZER QUE SIM OU DIZER QUE NÃO
QUEM VIER POR BEM ANDARÁ PELA MÃO
DE TODOS OS QUE LÁ SÃO

domingo, 14 de Junho de 2009

DE NOVO NO COMBOIO


Voltei a andar de comboio. E gostei muito outra vez, do que vi, senti e ouvi.

Só não pude gostar do que não li. Passo a explicar.


Quando digo que gostei de voltar a andar de comboio refiro-me aos inter-cidades no interior do País não aos cosmopolitas e burgueses alfas do rico litoral.

Por lá viajam ainda os mesmos de então : estudantes, idosos provincianos, turistas descobridores e pessoas em geral cujas riquezas terrenas não abundam. Sim, porque mesmo o médio dos mais "médiozinhos" Portugueses, mesmo em tempos de crise, prefere o carro apertado e pouco confortável, ao prazer de uma tranquila e apaziguadora viagem de comboio.


As carruagens, mesmo em 2ª classe são agradáveis. Climatizadas, pintadas de cores claras, limpas e espaçosas oferecem ao viajante um espaço confortável e acolhedor . Os lugares são ergonómicos QB, espaçosos, permitindo que o mais volumoso ou o mais alto fique sentado sem os inconvenientes conhecidos de "espartilho" em muitos dos outros meios de transportes.


A tranquilidade e a própria natureza do comboio bem como a dormência que empresta ao seu rolar, leva a que o passageiro seja livre e autónomo nas suas escolhas : do lazer profundo, que vai do dormir descansado ao embalar alternado com o visitar da paisagem, ao ler, fazer palavras cruzadas, conversar, e agora pelas novas tecnologias, poder trabalhar ou não no computador.


O embarque foi feito na Gare do Oriente. O destino, uma pequena cidade do interior. Uma informação perfeita em termos de horários e números das linhas através de uma voz de dicção perfeita e compreensível a todos. A exactidão dos minutos de atraso conferiu tanto na ida quanto na vinda. Nada a comentar, antes pelo contrário.


Apenas o que não vi não gostei. São estas pequenas coisas que infelizmente o nosso espírito pouco observador e descuidado deixa passar e cuja importância releva para segundo lugar características positivas das situações ou dos espaços que nos oferecemos a todos.


Sabemos que o Português é uma língua universal e falada por milhões. No entanto, o nosso País não é um exemplo no que confere à sua preservação a todo o custo, tal como o fazem os nossos vizinhos Espanhóis, por exemplo. O Inglês vale o que vale mas por enquanto é comum a muitos, pelo menos aos muitos que cá estão e mais ainda aos muitos que nos visitam.


Na sala de espera da Gare do Oriente, destinada aos passageiros dos comboios internacionais, cuidadosa e atrevo-me a dizer quase luxuosamente equipada e mobilada, as placas identificadoras com as informações respectivas apenas estão escritas em Português. Convém verificar e rectificar. Junho já cá está e o Verão está a chegar. Além disso não é dispendioso, não dá para invocar a crise para não se fazer.


No geral e para concluir gostei muito de voltar a andar de comboio.


Recomendo-o vivamente a graúdos e a pequenos. Conhecemos as terras de dentro duma janela larga de um comboio em oposição à correria apressada das auto estradas e das vias rápidas que enchem o nosso espaço moderno e que parecem ser para muitos a única alternativa de locomoção. Para os mais pequenos empresta ao imaginário infantil uma outra realidade : Portugal é muito bonito e está cá para o vermos mas é preciso querer olhar e descobrir.


No comboio, temos tempo para o tempo das coisas e isso é muito bom.

" SERÕES DE PROVÍNCIA"


Júlio Dinis tinha razão ao dar este titulo às suas crónicas. Eu, como ele vou tentar retratar, invocando a modéstia concedida aos amadores, os serões da minha província e como apesar de já passado mais de um século, a substância prevalece sobre a forma.

Um serão provincial continua a ser um serão da província.


Os de, os da e os na são importantes nas narrativas. Situam-nos nas ocorrências, determinam intervenientes, estabelecem espaços e dão contornos específicos às histórias. Por esse motivo os utilizamos tanto. Eu gosto sobretudo de pensar na minha província.


Quando o calor dos dias toma conta da terra, as pessoas agradecem as brisas refrescantes das noites e aí acontecem os serões. O espaço comum propicia e contorna encontros não programados. Ocasioanm-se, encontram-se e reúnem-se, numa comunhão de amigos e conhecidos que em redor de uma ou muitas mesas, depende do numero dos comensais, dividem histórias e partilham formas de estar e ser.


Num destes serões e à moda Balzequina, aconteceu uma sessão de poesia. Tivesse eu a mestria e a genialidade de um Dickens e o retrato seria sem duvida mais perfeito para os ausentes. De todas as formas vou tentar : Num repente, como se por magia mágica, as mesas transformaram-se num ofertório de alma, desviando as atenções das suas uguarias mais terrenas, as cadeiras e bancos corridos pareciam poltronas genovesas, e homens ,mulheres e crianças trocaram as indumentarias leves por fatos veludescos, com brocados, rendas e pérolas de enfeite e todos decidiram declamar poesia.


Andou-se muito e fizeram-se quilómetros na viagem das letras e dos livros. Da comédia, qual Gil Vicente reinventado, passámos a Cesariny e O'Neill aclamados na sua contemporaneidade, e depois dos poemas deixámos que entrassem os pensamentos e as reflexões testemunhadas e sentidas por muitos.


Tudo isto num serão de província. Gostámos tanto que já marcámos, datas, planeámos jantares literários e cada um já pensa nos seus autores predilectos com que vai presentear os amigos. Quem está na província, pelo menos na minha, tem tempo para ter agendas culturais não marcadas e confeccionadas individualmente a rigor, qual alfaiate de luxo da Rua do Carmo no tempo de Pessoa ou do Eça. Não há pressa, tudo acontece quando assim tem que ser.


Que a vontade seja forte e a imaginação fértil.


Pela madrugada, arrumava as cadeiras vazias, já bancos rústicos e toscos de novo, pareceu-me ouvir um sussurro. Voltei-me e vi ou não , eu sei que vi, o meu Mário de Sá Carneiro, fazendo um ultimo brinde da noite ao serão da província.

quarta-feira, 10 de Junho de 2009

FAZER DE UM SEM ABRIGO UM AMIGO

Pela primeira vez vou contar uma história real na primeira pessoa. Faço recorrendo ao estilo que pretendo seja o mais objectivo possível. Por envolver outras pessoas apenas as mencionarei pela inicial do nome. O que vou relatar é real e aconteceu durante o mês de Maio comigo e com a minha família.



Acredito como sempre acreditei que ajudar uma pessoa é salvar o mundo. É isso que me move, hoje e sempre. Só me posso sentir priveligiada por ter tido a oportunidade de a poder viver, eu e as minhas pessoas de casa.


Pertenço à Associação Conversa Amiga que tem como objectivo, num dos seus projectos, estabelecer laços de amizade com os sem abrigos. Como voluntária estou incluída em saídas de rua que aos sábados à noite se dirigem a vários locais da cidade de Lisboa com uns carrinhos com chá e produtos de higiéne, mas sobretudo com muita disponibilidade e afectividade para ouvir e conversar.


O voluntariado como se sabe promove a nossa auto estima e sentimos que ali somos importantes, seja na oferta de um chá, num abraço que se dá, numa festa de anos que se faz ou num curativo que se aprende a fazer. Dias bons e dias difíceis. Como a vida. Só que lá somos precisos, essenciais e isso nem sempre acontece com o resto das coisas que fazemos no nosso dia a dia.


Foi numa destas saídas que conheci o D, o Romeno, que na Praça do Comércio aguardava a carrinha da distribuição de comida. Chamou-me a atenção o seu jeito mudo e interrogativo. Era como se estivesse a observar e não a pedir. Cheguei-me a ele e começámos a conversar. Contou-me que nas férias da Páscoa ia à Roménia e que tinha sido roubado em Santa Apolónia não tendo tido ajudas da embaixada, pelo que sem dinheiro e sem trabalho, dormia debaixo do aqueduto das águas livres e que ia às arcadas da Praça do Comércio todos os dias buscar a comida. Só duas semanas depois e já em minha casa, soube que durante o dia, o D, ficava na FNAC para poder ler de graça e visitar os museus onde não se pagava entrada.


Naquela noite, perguntei-lhe se ele precisava de alguma coisa, roupas, ou outros artigos. Disse-me que não. Ainda hoje me interrogo porque lhe fiz a pergunta: e livros? os olhos do D até aí inexpressivos, brilharam de emoção e descobri que a leitura é uma linguagem universal para quem adora ler.


No dia 23 de Maio, data da saída posterior viajavam comigo : o Zé, o meu marido, um grupo de uma universidade e dois livros para o D. Assim que chegámos às arcadas lá estava ele e quando nos abraçamos era como se de dois amigos se tratasse. Os livros foram trocados por nomes de instituições que ajudam emigrantes de leste e que talvez pudessem resolver o seu caso. No meio soube que ele era jornalista na Roménia e que só tinha vindo para Portugal porque a diferença de ordenados era imensa : como jornalista na Roménia ganhava 200,00 Euros e em Portugal a trabalhar como empregado numa fábrica de cortiça ganhava 75,00 Euros por dia. Falámos de muitas coisas numa noite de chuva que parecia não ter fim.


De repente alguém me toca no braço e pede para falar comigo. Era o F, aluno da Universidade e um dos membros do grupo da visita. Perguntou-me se a história do D me parecia verdadeira ao que eu lhe respondi que sim. Olhou para mim, tocou-me no braço e disse para não me preocupar mais que ele punha o D na Roménia. Confesso que ao principio não entendi. O F teve de explicar : ele pagava o bilhete de avião para o D poder voltar para casa.


Das emoções seguidas entre nós os três, abraços e choros debaixo de uma paragem de autocarro, não vou falar. Não consigo transmitir por palavras o meu " NATAL EM MAIO" : a dádiva genuína , o agradecimento e o turbilhão de sentimentos de quem volta a acreditar que todos somos bons e próximos, apenas cabem numa única palavra : PARTILHA.


Temo que me esteja a alongar.

Resumindo, o F pagaria a viagem, a Conversa Amiga através do seu director, acompanharia o processo e o D foi para minha casa na 4ª feira à noite tendo embarcado para a Roménia na 6ª feira ao meio dia.


Dos dois dias de convivio familiar, comigo com o Zé e os meus dois filhos, o Simão e o Tomás de 20 e 15 anos apenas vou dar conta do primeiro jantar que ficará para sempre guardado na lembrança e na memória dos cinco felizardos que o viveram.


Uma mesa de jantar. Bacalhau e salada. Na televisão uma final da taça. Os homens da casa, incluindo o D, adoravam footeball e sabiam os nomes dos jogadores e equipas. Trocaram-se depois receitas culinárias. Falou-se de jornalismo já que o Simão está a terminar o curso de Comunicação Social. Musica, muita musica. Pink Floyd, a banda predilecta do D, Clash os ídolos do Zé. SoapBox a banda do Simão que vai tocar ao SuperBock no próximo dia 11 de Julho no Porto mas que já passa na rádio Transilvânia da Roménia. Jogos de computador, evidente. O D jogava on line o mesmo jogo que o Tomás joga. E livros, muitos livros. Miguel Esteves Cardoso. o MEC, já com os fans caseiros e agora mais um, o D Romeno. Pintura, claro, a dona da casa pinta, as paredes estavam repletas de telas. O génio do meu Picasso foi discutido com o exuberante Dali do D.

Um café, bolachas de canela e um cigarro para os mais velhos. E Filmes ? os mesmos, Clint, o grande mestre, Million Dollar Baby, um filme aplaudido por todos.


A sexta feira da partida. Passsaram tão depressa os dias. Como explicar, que fazer de um sem abrigo um amigo é verdadeiro, que pode ser possível, que acontece mesmo. Não sei. Apenas digo que foi difícil dizer adeus a um amigo que provavelmente não se tornará a ver.


Os mails resolvem em parte a ausência e as saudades. Desde aí têm sido muitos. O D já é de novo jornalista na Roménia e esteve esta semana a fazer a cobertura de um festival de cinema. Notícias felizes e outras menos boas. Hoje soubemos que a tia do D tinha falecido e foi com um sentimento de amizade profunda que lhe mandámos um abraço dos amigos de Portugal.


Afinal, para nos conhecermos e gostarmos uns dos outros não precisamos de quase nada :

Apenas de sermos quem somos e como somos.

segunda-feira, 1 de Junho de 2009

UMA QUESTÃO DE NERVOS


Estar doente no verão é uma chatice. Mesmo quando se é uma pessoa com doença, nem sempre se está com a dita, descansa-se de vez em quando o que é muito bom.

Voltemos ao verão que sem ser já é. Podia ter vindo de mansinho, devagarinho, pé ante pé, mas não, decidiu que chegaria de rompante, aos sopetões, e o resto viria por acréscimo.


De facto, o Verão e a Doença são parecidos : não se anunciam, instalam-se e não há mais do que resignadamente suportar os seus ânimos e caprichos. A força de vontade que um humano tem de fazer para os domar é um esforço em vão. Os seus caprichos são demasiado mesquinhos para se condoerem perante os desejos de um comum mortal. Não adianta pensar o que se fez mal antes e dizer que se vai ter cuidado agora, tal como constante e "Portuguesmente" maldizemos o frio no inverno e chamamos por ele no verão.


Contrariar a natureza das coisas é sempre dificil : é preferível não estrebuchar. A resignação e a esperança em dias melhores e mais frescos é mesmo a melhor atitude, até porque dores com calor só podem dar uma coisa : nervos.


E nós não queremos ficar doentes nervosos no verão.

segunda-feira, 25 de Maio de 2009

CONTAS DA GENTE

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domingo, 24 de Maio de 2009

NOITE DE NATAL EM MAIO


Três pessoas, dois homens e uma mulher numa paragem do autocarro à noite. Chovia muito e os três abraçavam-se, choravam e riam. Quem passou por lá, pensou tratar-se de uma família infeliz, num desastre, quem sabe numa morte. A vida humana tem-nos ensinado sempre o pior. As boas coisas costumam acontecer tão poucas vezes que já nem ocorre pensar nelas, quanto mais na possibilidade de poderem acontecer.


Eu que estava por lá e vi tudo o que se passou, vou contar a história, como deve ser:


Era uma vez um homem muito pobre que vivia na rua porque não tinha casa. Esse senhor tinha vindo dum País distante em busca de uma vida melhor. Na terra dele contava histórias, era jornalista, depois quando chegou a este reino teve de trabalhar numa fábrica de cortiça.

Na Páscoa, com saudades da tia muito velhinha que o tinha criado, decidiu ir à sua terra e fazer-lhe a surpresa da visita.

Agora vem a parte mais triste desta história. Foi roubado e levaram-lhe a mala com as roupas e o dinheiro. E assim, ele teve de passar a dormir nas ruas da cidade.


Há uns tempos, a menina dos chocolates, que de vez em quando vai com os seus amigos visitar os que moram lá, conheceu o senhor pobre. Perguntou-lhe se ele precisava de alguma coisa e ele disse que apenas sentia a falta de não ter livros.

Passados uns dias, a menina foi lá de novo, levou-lhe dois livros e passaram o resto da noite a conversar. O senhor pobre só queria poder arranjar um emprego para poder voltar de novo para o seu País.


Acontece que nessa noite a menina mais os seus amigos vinham acompanhados de uns convidados ilustres do reino. Viram e falaram com as pessoas que estavam na rua e a menina achou que estava tudo a correr bem. Apesar de importantes, pareciam ser pessoas de bom coração e bem intencionadas.


Quando a menina estava a ver se era necessário mais alguma coisa, chega-se ao pé dela o Príncipe do Reino Feliz que também tinha vindo na comitiva. Ao ver a menina e o Senhor Pobre, ele como Senhor da Felicidade, resolveu fazer acontecer o desejo do Senhor pobre.


Quase como uma fada, ele ofereceu um tapete voador todo bordado a ouro, para o senhor pobre poder regressar ao seu país. A menina estava tão contente que não sabia o que fazer, se rir, se chorar, se abraçar o Príncipe. Só lhe apetecia mesmo era cantar.


O senhor pobre deu-lhe um abraço tão forte como as coisas mais fortes do mundo e virando-se para o Príncipe fez-lhe uma vénia de respeito e gratidão.


Depois de combinarem as coisas de uma viagem tão grande, todos foram para as suas casas felizes e cansados de tantas emoções: O senhor pobre porque tinha realizado o seu sonho e a menina dos chocolates porque tinha juntado os dois.

Quanto ao Príncipe da felicidade, quando o vieram buscar na sua carruagem dourada sorria, como só fazem os homens bons depois de fazerem coisas muito generosas.


E assim acaba a história e viveram felizes para sempre, sempre, sempre ... quando pensavam naquela paragem de autocarro.


Dedico esta história ao Príncipe feliz e ao Senhor Pobre.


E a todas as minhas pessoas também.

Vale a pena acreditar que é possível ser NATAL EM MAIO.

quarta-feira, 20 de Maio de 2009

LES MISERABLES


KO ou OK nunca se sabe. A expressão não é minha, é do cientista António Damásio que percebe muito mais do que a maior parte das pessoas 0 que aflige o cérebro do comum dos mortais para se estar KO ou OK.


Nos tempos que passam todos parecemos andar um pouco KO. A conjuntura não é favorável e os problemas e angustias pessoais florescem que nem papoilas na primavera. Ninguém disse que tudo tinha de ser fácil mas o que é certo é que a facilidade, companheira da "felicidade quotidiana", é bem mais fácil de tolerar do que o sofrimento e as tristezas diárias.


Como fazer então, como escolher, como decidir o que nos faz ou não pessoas KO ou OK. Existem por aí uns gurus da felicidade que têm receitas de como ser feliz numa semana.

Se alguém conhecer um caso de sucesso eu deixo o meu mail, telefone , telemóvel pago logo e dou o menu a familiares e amigos necessitados.


Mantém-se sempre a incógnita que já vem de longe, eu diria mesmo desde sempre. Só que agora é talvez mais difícil. A felicidade é-nos injectada pela vida dentro, como um bem adquirido e quem não a tem ou não a sente tem se ser necessáriamente o mais miserável entre os LES MISERABLES restantes.


Deixemos as falácias, cada um com cada qual, saberá que KO ou OK faz parte da vida e que tudo é passageiro, como a nuvem da canção. Felicidade e tristeza. Nós somos assim.


Não há receitas, cada um porá QB, no seu KO ou no seu OK.

segunda-feira, 18 de Maio de 2009

TORTURA


domingo, 17 de Maio de 2009

TEMPO PARA FAZER COISAS

TEMPO PARA FAZER GINÁSTICA

TEMPO PARA COMPRAR SAPATOS

TEMPO PARA COMER CEREJAS

sexta-feira, 15 de Maio de 2009

I AM A BIRD GIRL



ANTONY : 14 DE MAIO DE 2009, Coliseu de Lisboa


Concerto do Antony, bilhetes comprados desde Janeiro não fossem depois ficarem esgotados. Vou deixar aos críticos musicais que os há por vezes até demais, as comparações, as ilações, as apreciações, as teorias, se foi bom ou mau, se está melhor ou pior, banal ou divino, por mim tanto faz. Eu estava lá por causa daquele rapaz.


Vou-me deixar falar e hoje que é o dia a seguir ao dia antes, vou recordar , memorizar, lembrar, recapitular, somar, dividir, anotar para não esquecer. Escrever para poder ler.

Todo o resto é difícil transmitir. Não consigo dizer sem partir e fugir.
Sítios donde não quero tornar a vir. Emoções impossíveis de partilhar e não poder contar o que não vivi e lembrar o que sofri, o que nunca vou dizer e o que nunca vou fazer, fazendo.
Depois veio o sonho. Uma mão dentro doutra mão, os olhos próximos de quem esteve sempre tão perto. Finalmente, o Antony que estava ali, para mim e por mim.
Esperei duas horas, o tempo é infinito e leal nos sentimentos e nas emoções.
Fui a BIRD GIRL a voar, rodopiar e voar de novo sem nunca me cansar.

segunda-feira, 11 de Maio de 2009

ANTÓNIA, a fazedeira


O seu oficio é fazer pequenas coisas. Coisas poucas, sem importância e relevância.

Tão ocas, balofas e tontas como comprar latas de coca cola zero e garrafas de água para a azia.

Apesar disso, não é fácil escolher, cada vez são mais diferentes e sempre iguais que a gente hesita e desconfia.

Só que quem faz as compras tem de saber escolher, senão sabe que o ralhar vai ter.

Começa cedo o seu dia. Sacode tapetes, põe a água a ferver e come a correr.

Engoma a roupa, estica a camisola, dobra o lençol, o ferro passa e repassa e a pilha nunca mais fica vazia e a tábua já assobia de tantos passeios.

Faz o pequeno almoço. Torradas, leite, café, chá e bolachas para a tia, coitada amortalhada no quarto qual manto do sudário estendido, dá peidos e gargalhadas na latrina de uma sinfonia.

Arruma os quartos, a sala, aspira e varre, faz o comer. Limpa a cozinha, estende a roupa, dá o comer à tia, sacode o gato, abana o pássaro e por fim faz o prato do jantar.
Em casa da tia não há monotonia.

Gosta do que faz, enquanto faz, desfaz e refaz tem tempo para pensar sem ousar perguntar.

É livre de não ter que dar respostas. Está feito e acabou-se e nunca se fartou-se.

Está na casa da tia já não sabe os dias. Muda e surda, o torresmo chamada Antónia, cuida da tia.

domingo, 10 de Maio de 2009

UMA MULHER DE 1900

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Anos 70 em Portugal, um verão muito quente, uma família tradicional e um almoço de domingo igual a tantos outros. À mesa numa das cabeceiras a senhora, a dona da casa, no outro extremo o marido da filha. No lado direito, a menina (apesar dos seus quarenta e cinco anos) ao lado do marido, o filho e o sobrinho. Do outro sentavam-se os primos e a filha pequena.

Apesar de ser verão, a dona da casa exigia que tudo estivesse como ela queria e sabia. Toalha branca, direita como se acabada de engomar, copos para o vinho e para a água e guardanapos bordados envolvidos em pequenas alianças de prata com os monogramas de cada um dos presentes. Excepção para os pequenos que em vez das letras iniciais dos nomes tinham um menino e uma menina gravados tanto no guardanapo quanto na pequenina argola que as envolvia.

Estava um dia particularmente quente. Naquela época, o verão era verão e as estações eram bem delineadas no tempo. As estações e não só. Tudo tinha o seu tempo, não se comiam uvas em Março nem peru sem ser no natal, havia fatos de saída para os domingos, as crianças falavam pouco ou nada à mesa e tudo tinha o seu tempo e modo próprio de ser.

No entanto, naquele domingo passou-se qualquer coisa de anormal. O padrão sempre presente, neste cenário de conservadorismo, como que se esfumou por magia.

Esta história marcou a memória dos presentes nesse dia e tem sido contada aos mais novos da familia como prova de teimosia e autoritarismo para uns, coragem e exemplo de vida para outros. Como nisto dos factos, cada qual recolhe dos acontecimentos a parte que mais tem a ver consigo próprio.

Passemos então aos acontecimentos :

- O Sr. não vem para a mesa de camisa aberta. Não são propósitos de se estar a comer. Quem diz estas palavras é a velha senhora para o genro que por razões conhecidas mas nunca mencionadas nunca tinha aprovado aquele casamento e como tal nada melhor do que manter as distâncias de tratamento e não só.

- Ora essa, estou na minha casa, está calor e venho como eu me apetecer, responde o interpelado.

A esta altura dos acontecimentos, já todos os outros comensais se haviam calado. Sabiam que a altura era tensa e que de nada ganhavam em intervir, mesmo a filha e mulher dos dois oponentes, que baixando os olhos, adoptava a atitude submissa de sempre.

- Nesse caso, e como o calor não é só para o Sr., eu despirei também a minha camisa. A senhora levantou-se, desencostou um pouco a cadeira e ergueu-se. De repente, ela que já era alta, pareceu tão esguia como uma vara. Alta e magra, velha e seca. A pela enrugada e muito branca que já deixava ver a cor azul das veias. Nos olhos a vivacidade e a determinação de quem tem vinte anos. Saia preta e blusa de seda às bolinhas brancas e pretas. Os seus dedos esguios apenas adornados por uma aliança de ouro chapado abeiram-se da gola e começam a desabotoar os botõezinhos forrados do tecido da blusa. Chegou até se ver o inicio da renda preta da combinação.

Do outro lado da mesa, o genro levantou-se de um repente e abotoou a camisa, não sem antes protestar entre dentes estar em sua casa e não poder usufruir da liberdade de uma camisa desapertada.

A senhora sentou-se de novo, abotoou a blusa, apertou a mão da filha, virou-se para o sobrinho mais novo e disse com a voz mais doce deste mundo :

Podemos agora começar a refeição. Depois vais contar à avó todos os mergulhos de mar que deste hoje, está bem ?

quinta-feira, 7 de Maio de 2009

AMIGOS

http://www.flixxy.com/antwerp-central-station-sound-of-music.htm

Ouvir o coração com musica e dançar com musica no coração.
Hoje fui feliz e sei porquÊ.
Coisa "pouca", amigos e muita amizade.
Sonhos, conversas, risos e sorrisos numa terra de fraternidade.
Somos assim, os N+Ó+S, afortunados na terra da amizade.

quarta-feira, 6 de Maio de 2009

ESCREVER NA LIBERDADE


Hoje, dia 7 de Maio de 2009, o condenado já está morto.
Os dois menores também já enforcados estão.
O que valeu à mulher foi o acto de arrependição.
O condenado foi morto por lapidação.
Não é o primeiro. É o quinto nos últimos dois anos que é enterrado no chão.
Tribunal de Parsabad Moghan aplica o código penal do Irão.
O homem cometeu adultério com a mulher, os dois menores um homem mataram.
O homem foi enterrado até à altura da cintura e foram-lhe atiradas pedras.
Pedras pequenas, muito pequeninas, para morrer devagar e com lentidão.
Agora estão todos enterrados no Irão.


MUITO URGENTE :

Para aqueles que estão em perigo cada carta funciona como

"uma voz na escuridão"

terça-feira, 5 de Maio de 2009

CARTA AOS SENHORES ENGENHEIROS.

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  • Sr. Engº, todos os que lá estavam tinham fome no olhar. Eu só tinha bolachas e chocolates para dar. Eles eram muitos, cada vez são mais.
  • Não é possível, comida, eu já mandei dar.
  • A sério? é que eles ainda não tinham comido o jantar e já passava da hora do deitar. Se me é permitido, aconselhava a prestar mais atenção. A fome torna os homens nervosos e depois são as brigas e as pancadas . Os turistas tiram retratos dos maus tratos, é perigoso para a imagem do governo.
  • Aí tem razão, de facto terei de ter mais precaução. Não me faltava mais nada agora, dizerem que Portugal tinha fome e pancadarias , era país de de gritarias, romarias de garrafas de vinho e de cabeças rachadas.
  • Já que me parece estar V. Exa. com tamanha preocupação, informo-o que também escasseiam a comida das carrinhas, o leite e o pão. E já agora se fosse possível a visita de um doutor ou de um enfermeiro, sabe que eles têm muitas maleitas que precisam de curas bem feitas. Tudo isto pode o Sr. Engº resolver ?
  • Isso é fácil, vai ver. Vou reunir os conselheiros e as secretarias e tudo se irá fazer.
  • Mas eles estão lá hoje, agora, a esta hora, não há tempo para esperar.
  • Bem, assim não podemos conversar. Tem pressa e eu tenho mais com que me ralar. A paciência é uma grande virtude. Vai ter de saber aguardar.
  • Então, não temos compromisso, uma data para uma nova reunião para vermos o ponto da situação?
  • Olhe, eu agora estou com pressa. Marque com a minha secretária uma hora para o mês que vem que eu vou ver o que posso fazer, mas nada de pressões. Depressa e bem não há quem, nunca ouviu dizer?

Fome dentro de lisboa, nem pensar. Deve ser situação pontual. Falta de leite nas carrinhas de distribuição da comida, impossível. Só pode mesmo ser um problema de comunicação.

Uma noite em Lisboa, Maio de 2009, numa rua perto de si.

sexta-feira, 1 de Maio de 2009

LIVROS EM FEIRA

Hoje, dia do trabalhador e não desfazendo na efeméride, achei apropriado gozar o feriado de outra forma que não nas tradicionais manifestações, ou nos passeios feriadeiros.
Fui à feira do livro. Como eu gosto de dizer aos LIVROS em FEIRA.
Gostei de ir. Hábito, todos os anos feito com prazer.
Tudo se mistura, livros claro, mas também gelados, cachorros especiais e farturas.
As pessoas andam e desandam dos stands. Querem comprar mas não sabem que trazer.
Depois vem a desilusão. Mário de Sá Carneiro?
Não há. Já deu para esquecer e não temos para vender.
Só mesmo se for na Assírio & Alvim, aquele que do livro ainda se lembra do que é palavras em partituras, publicando o que poucos lêem e o que muitos teimam em perder.
Um pouco depois foi como se me tivesse saído a sorte gigante.
Finalmente alguém tinha para vender. Pouco, mas tinha o que eu procurava fazia meses :
Poesia Japonesa , que sem encontrar e de tanto procurar, já pensava em desesperar.
E depois feliz por saber ler e gostar tanto de livros,
Foucault, Nietzsche e D. H. Lawrence vieram comigo num saco de papel que por uns tempos ainda vou guardar. É que os livros têm cheiro e é bom com eles cheirar.
Os livros são perigosos, como dizia alguém. Então se forem o único podem transformar-se na verdadeira essência da vida de um homem.
Como Sá Carneiro.
Cesariny diz que ele não tinha geito para o negócio.
Vê-se, nota-se e comprova-se.

DANÇAR

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Xana, XFM