Este é um espaço que se pretende aberto a quem goste de contar histórias e de andar nos turbilhões labirínticos das palavras e das cores como bouquês feitos de lâminas.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

domingo, 24 de maio de 2009

NOITE DE NATAL EM MAIO


Três pessoas, dois homens e uma mulher numa paragem do autocarro à noite. Chovia muito e os três abraçavam-se, choravam e riam. Quem passou por lá, pensou tratar-se de uma família infeliz, num desastre, quem sabe numa morte. A vida humana tem-nos ensinado sempre o pior. As boas coisas costumam acontecer tão poucas vezes que já nem ocorre pensar nelas, quanto mais na possibilidade de poderem acontecer.


Eu que estava por lá e vi tudo o que se passou, vou contar a história, como deve ser:


Era uma vez um homem muito pobre que vivia na rua porque não tinha casa. Esse senhor tinha vindo dum País distante em busca de uma vida melhor. Na terra dele contava histórias, era jornalista, depois quando chegou a este reino teve de trabalhar numa fábrica de cortiça.

Na Páscoa, com saudades da tia muito velhinha que o tinha criado, decidiu ir à sua terra e fazer-lhe a surpresa da visita.

Agora vem a parte mais triste desta história. Foi roubado e levaram-lhe a mala com as roupas e o dinheiro. E assim, ele teve de passar a dormir nas ruas da cidade.


Há uns tempos, a menina dos chocolates, que de vez em quando vai com os seus amigos visitar os que moram lá, conheceu o senhor pobre. Perguntou-lhe se ele precisava de alguma coisa e ele disse que apenas sentia a falta de não ter livros.

Passados uns dias, a menina foi lá de novo, levou-lhe dois livros e passaram o resto da noite a conversar. O senhor pobre só queria poder arranjar um emprego para poder voltar de novo para o seu País.


Acontece que nessa noite a menina mais os seus amigos vinham acompanhados de uns convidados ilustres do reino. Viram e falaram com as pessoas que estavam na rua e a menina achou que estava tudo a correr bem. Apesar de importantes, pareciam ser pessoas de bom coração e bem intencionadas.


Quando a menina estava a ver se era necessário mais alguma coisa, chega-se ao pé dela o Príncipe do Reino Feliz que também tinha vindo na comitiva. Ao ver a menina e o Senhor Pobre, ele como Senhor da Felicidade, resolveu fazer acontecer o desejo do Senhor pobre.


Quase como uma fada, ele ofereceu um tapete voador todo bordado a ouro, para o senhor pobre poder regressar ao seu país. A menina estava tão contente que não sabia o que fazer, se rir, se chorar, se abraçar o Príncipe. Só lhe apetecia mesmo era cantar.


O senhor pobre deu-lhe um abraço tão forte como as coisas mais fortes do mundo e virando-se para o Príncipe fez-lhe uma vénia de respeito e gratidão.


Depois de combinarem as coisas de uma viagem tão grande, todos foram para as suas casas felizes e cansados de tantas emoções: O senhor pobre porque tinha realizado o seu sonho e a menina dos chocolates porque tinha juntado os dois.

Quanto ao Príncipe da felicidade, quando o vieram buscar na sua carruagem dourada sorria, como só fazem os homens bons depois de fazerem coisas muito generosas.


E assim acaba a história e viveram felizes para sempre, sempre, sempre ... quando pensavam naquela paragem de autocarro.


Dedico esta história ao Príncipe feliz e ao Senhor Pobre.


E a todas as minhas pessoas também.

Vale a pena acreditar que é possível ser NATAL EM MAIO.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

LES MISERABLES


KO ou OK nunca se sabe. A expressão não é minha, é do cientista António Damásio que percebe muito mais do que a maior parte das pessoas 0 que aflige o cérebro do comum dos mortais para se estar KO ou OK.


Nos tempos que passam todos parecemos andar um pouco KO. A conjuntura não é favorável e os problemas e angustias pessoais florescem que nem papoilas na primavera. Ninguém disse que tudo tinha de ser fácil mas o que é certo é que a facilidade, companheira da "felicidade quotidiana", é bem mais fácil de tolerar do que o sofrimento e as tristezas diárias.


Como fazer então, como escolher, como decidir o que nos faz ou não pessoas KO ou OK. Existem por aí uns gurus da felicidade que têm receitas de como ser feliz numa semana.

Se alguém conhecer um caso de sucesso eu deixo o meu mail, telefone , telemóvel pago logo e dou o menu a familiares e amigos necessitados.


Mantém-se sempre a incógnita que já vem de longe, eu diria mesmo desde sempre. Só que agora é talvez mais difícil. A felicidade é-nos injectada pela vida dentro, como um bem adquirido e quem não a tem ou não a sente tem se ser necessáriamente o mais miserável entre os LES MISERABLES restantes.


Deixemos as falácias, cada um com cada qual, saberá que KO ou OK faz parte da vida e que tudo é passageiro, como a nuvem da canção. Felicidade e tristeza. Nós somos assim.


Não há receitas, cada um porá QB, no seu KO ou no seu OK.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

domingo, 17 de maio de 2009

TEMPO PARA FAZER COISAS

TEMPO PARA FAZER GINÁSTICA

TEMPO PARA COMPRAR SAPATOS

TEMPO PARA COMER CEREJAS

sexta-feira, 15 de maio de 2009

I AM A BIRD GIRL



ANTONY : 14 DE MAIO DE 2009, Coliseu de Lisboa


Concerto do Antony, bilhetes comprados desde Janeiro não fossem depois ficarem esgotados. Vou deixar aos críticos musicais que os há por vezes até demais, as comparações, as ilações, as apreciações, as teorias, se foi bom ou mau, se está melhor ou pior, banal ou divino, por mim tanto faz. Eu estava lá por causa daquele rapaz.


Vou-me deixar falar e hoje que é o dia a seguir ao dia antes, vou recordar , memorizar, lembrar, recapitular, somar, dividir, anotar para não esquecer. Escrever para poder ler.

Todo o resto é difícil transmitir. Não consigo dizer sem partir e fugir.
Sítios donde não quero tornar a vir. Emoções impossíveis de partilhar e não poder contar o que não vivi e lembrar o que sofri, o que nunca vou dizer e o que nunca vou fazer, fazendo.
Depois veio o sonho. Uma mão dentro doutra mão, os olhos próximos de quem esteve sempre tão perto. Finalmente, o Antony que estava ali, para mim e por mim.
Esperei duas horas, o tempo é infinito e leal nos sentimentos e nas emoções.
Fui a BIRD GIRL a voar, rodopiar e voar de novo sem nunca me cansar.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

ANTÓNIA, a fazedeira


O seu oficio é fazer pequenas coisas. Coisas poucas, sem importância e relevância.

Tão ocas, balofas e tontas como comprar latas de coca cola zero e garrafas de água para a azia.

Apesar disso, não é fácil escolher, cada vez são mais diferentes e sempre iguais que a gente hesita e desconfia.

Só que quem faz as compras tem de saber escolher, senão sabe que o ralhar vai ter.

Começa cedo o seu dia. Sacode tapetes, põe a água a ferver e come a correr.

Engoma a roupa, estica a camisola, dobra o lençol, o ferro passa e repassa e a pilha nunca mais fica vazia e a tábua já assobia de tantos passeios.

Faz o pequeno almoço. Torradas, leite, café, chá e bolachas para a tia, coitada amortalhada no quarto qual manto do sudário estendido, dá peidos e gargalhadas na latrina de uma sinfonia.

Arruma os quartos, a sala, aspira e varre, faz o comer. Limpa a cozinha, estende a roupa, dá o comer à tia, sacode o gato, abana o pássaro e por fim faz o prato do jantar.
Em casa da tia não há monotonia.

Gosta do que faz, enquanto faz, desfaz e refaz tem tempo para pensar sem ousar perguntar.

É livre de não ter que dar respostas. Está feito e acabou-se e nunca se fartou-se.

Está na casa da tia já não sabe os dias. Muda e surda, o torresmo chamada Antónia, cuida da tia.

domingo, 10 de maio de 2009

UMA MULHER DE 1900

Anos 70 em Portugal, um verão muito quente, uma família tradicional e um almoço de domingo igual a tantos outros. À mesa numa das cabeceiras a senhora, a dona da casa, no outro extremo o marido da filha. No lado direito, a menina (apesar dos seus quarenta e cinco anos) ao lado do marido, o filho e o sobrinho. Do outro sentavam-se os primos e a filha pequena.

Apesar de ser verão, a dona da casa exigia que tudo estivesse como ela queria e sabia. Toalha branca, direita como se acabada de engomar, copos para o vinho e para a água e guardanapos bordados envolvidos em pequenas alianças de prata com os monogramas de cada um dos presentes. Excepção para os pequenos que em vez das letras iniciais dos nomes tinham um menino e uma menina gravados tanto no guardanapo quanto na pequenina argola que as envolvia.

Estava um dia particularmente quente. Naquela época, o verão era verão e as estações eram bem delineadas no tempo. As estações e não só. Tudo tinha o seu tempo, não se comiam uvas em Março nem peru sem ser no natal, havia fatos de saída para os domingos, as crianças falavam pouco ou nada à mesa e tudo tinha o seu tempo e modo próprio de ser.

No entanto, naquele domingo passou-se qualquer coisa de anormal. O padrão sempre presente, neste cenário de conservadorismo, como que se esfumou por magia.

Esta história marcou a memória dos presentes nesse dia e tem sido contada aos mais novos da familia como prova de teimosia e autoritarismo para uns, coragem e exemplo de vida para outros. Como nisto dos factos, cada qual recolhe dos acontecimentos a parte que mais tem a ver consigo próprio.

Passemos então aos acontecimentos :

- O Sr. não vem para a mesa de camisa aberta. Não são propósitos de se estar a comer. Quem diz estas palavras é a velha senhora para o genro que por razões conhecidas mas nunca mencionadas nunca tinha aprovado aquele casamento e como tal nada melhor do que manter as distâncias de tratamento e não só.

- Ora essa, estou na minha casa, está calor e venho como eu me apetecer, responde o interpelado.

A esta altura dos acontecimentos, já todos os outros comensais se haviam calado. Sabiam que a altura era tensa e que de nada ganhavam em intervir, mesmo a filha e mulher dos dois oponentes, que baixando os olhos, adoptava a atitude submissa de sempre.

- Nesse caso, e como o calor não é só para o Sr., eu despirei também a minha camisa. A senhora levantou-se, desencostou um pouco a cadeira e ergueu-se. De repente, ela que já era alta, pareceu tão esguia como uma vara. Alta e magra, velha e seca. A pela enrugada e muito branca que já deixava ver a cor azul das veias. Nos olhos a vivacidade e a determinação de quem tem vinte anos. Saia preta e blusa de seda às bolinhas brancas e pretas. Os seus dedos esguios apenas adornados por uma aliança de ouro chapado abeiram-se da gola e começam a desabotoar os botõezinhos forrados do tecido da blusa. Chegou até se ver o inicio da renda preta da combinação.

Do outro lado da mesa, o genro levantou-se de um repente e abotoou a camisa, não sem antes protestar entre dentes estar em sua casa e não poder usufruir da liberdade de uma camisa desapertada.

A senhora sentou-se de novo, abotoou a blusa, apertou a mão da filha, virou-se para o sobrinho mais novo e disse com a voz mais doce deste mundo :

Podemos agora começar a refeição. Depois vais contar à avó todos os mergulhos de mar que deste hoje, está bem ?

quinta-feira, 7 de maio de 2009

AMIGOS

http://www.flixxy.com/antwerp-central-station-sound-of-music.htm

Ouvir o coração com musica e dançar com musica no coração.
Hoje fui feliz e sei porquÊ.
Coisa "pouca", amigos e muita amizade.
Sonhos, conversas, risos e sorrisos numa terra de fraternidade.
Somos assim, os N+Ó+S, afortunados na terra da amizade.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

ESCREVER NA LIBERDADE


Hoje, dia 7 de Maio de 2009, o condenado já está morto.
Os dois menores também já enforcados estão.
O que valeu à mulher foi o acto de arrependição.
O condenado foi morto por lapidação.
Não é o primeiro. É o quinto nos últimos dois anos que é enterrado no chão.
Tribunal de Parsabad Moghan aplica o código penal do Irão.
O homem cometeu adultério com a mulher, os dois menores um homem mataram.
O homem foi enterrado até à altura da cintura e foram-lhe atiradas pedras.
Pedras pequenas, muito pequeninas, para morrer devagar e com lentidão.
Agora estão todos enterrados no Irão.


MUITO URGENTE :

Para aqueles que estão em perigo cada carta funciona como

"uma voz na escuridão"

terça-feira, 5 de maio de 2009

CARTA AOS SENHORES ENGENHEIROS.

  • Sr. Engº, todos os que lá estavam tinham fome no olhar. Eu só tinha bolachas e chocolates para dar. Eles eram muitos, cada vez são mais.
  • Não é possível, comida, eu já mandei dar.
  • A sério? é que eles ainda não tinham comido o jantar e já passava da hora do deitar. Se me é permitido, aconselhava a prestar mais atenção. A fome torna os homens nervosos e depois são as brigas e as pancadas . Os turistas tiram retratos dos maus tratos, é perigoso para a imagem do governo.
  • Aí tem razão, de facto terei de ter mais precaução. Não me faltava mais nada agora, dizerem que Portugal tinha fome e pancadarias , era país de de gritarias, romarias de garrafas de vinho e de cabeças rachadas.
  • Já que me parece estar V. Exa. com tamanha preocupação, informo-o que também escasseiam a comida das carrinhas, o leite e o pão. E já agora se fosse possível a visita de um doutor ou de um enfermeiro, sabe que eles têm muitas maleitas que precisam de curas bem feitas. Tudo isto pode o Sr. Engº resolver ?
  • Isso é fácil, vai ver. Vou reunir os conselheiros e as secretarias e tudo se irá fazer.
  • Mas eles estão lá hoje, agora, a esta hora, não há tempo para esperar.
  • Bem, assim não podemos conversar. Tem pressa e eu tenho mais com que me ralar. A paciência é uma grande virtude. Vai ter de saber aguardar.
  • Então, não temos compromisso, uma data para uma nova reunião para vermos o ponto da situação?
  • Olhe, eu agora estou com pressa. Marque com a minha secretária uma hora para o mês que vem que eu vou ver o que posso fazer, mas nada de pressões. Depressa e bem não há quem, nunca ouviu dizer?

Fome dentro de lisboa, nem pensar. Deve ser situação pontual. Falta de leite nas carrinhas de distribuição da comida, impossível. Só pode mesmo ser um problema de comunicação.

Uma noite em Lisboa, Maio de 2009, numa rua perto de si.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

LIVROS EM FEIRA

Hoje, dia do trabalhador e não desfazendo na efeméride, achei apropriado gozar o feriado de outra forma que não nas tradicionais manifestações, ou nos passeios feriadeiros.
Fui à feira do livro. Como eu gosto de dizer aos LIVROS em FEIRA.
Gostei de ir. Hábito, todos os anos feito com prazer.
Tudo se mistura, livros claro, mas também gelados, cachorros especiais e farturas.
As pessoas andam e desandam dos stands. Querem comprar mas não sabem que trazer.
Depois vem a desilusão. Mário de Sá Carneiro?
Não há. Já deu para esquecer e não temos para vender.
Só mesmo se for na Assírio & Alvim, aquele que do livro ainda se lembra do que é palavras em partituras, publicando o que poucos lêem e o que muitos teimam em perder.
Um pouco depois foi como se me tivesse saído a sorte gigante.
Finalmente alguém tinha para vender. Pouco, mas tinha o que eu procurava fazia meses :
Poesia Japonesa , que sem encontrar e de tanto procurar, já pensava em desesperar.
E depois feliz por saber ler e gostar tanto de livros,
Foucault, Nietzsche e D. H. Lawrence vieram comigo num saco de papel que por uns tempos ainda vou guardar. É que os livros têm cheiro e é bom com eles cheirar.
Os livros são perigosos, como dizia alguém. Então se forem o único podem transformar-se na verdadeira essência da vida de um homem.
Como Sá Carneiro.
Cesariny diz que ele não tinha geito para o negócio.
Vê-se, nota-se e comprova-se.

DANÇAR

Xana, XFM

segunda-feira, 27 de abril de 2009

O CONVENTO


no convento do rezar, a catraia arregaça a saia
a estrada para lá chegar desmaia na praia
a aia que a ouviu cantar, vem espreitar
vem mandar andar e não pular no ar.

no convento do tormento há uma janela amarela
quem lá vai abarca muros
feitos de pedra e cimento, são duros os muros
ficam de guarda e não aguardam os mais puros.

no convento com vento
tarda a pancada do nada
a catraia com pressentimento
do tempo brinca de fada

no convento do esquecimento, a aia aguarda
há-de chegar vindouros. limpa a gamela e a panela
à noite uivam mochos e chega a guarda fardada com farda dada e estragada
fala alto, vocifera impropérios, roldão de palavra estragada
falam daquela aia. olham para ela e fogem dela.

no convento do fingimento, tudo é falso
tudo leva descaminho no descampado do tempo
o incauto ignora o percalço, o ermida de sua natureza acata o ermo.
do desterro

AURORA


aurora fala a rir da primavera
a prima vera vai lá ficar
no café, ante pé, aurora tira a caixa do rapé
a vera bera põe baton vermelho, diz olé e sai pelo seu pé

aurora já não dorme com canivete
tem medo de nos sonhos o perder
no braço direito a bracelete
no esquerdo a colher para comer

um dia, aurora vai com a aurora do dia
ora, ora, aurora, diz o padre
ora, que hora para se ir, diz o compadre
a aurora vai fugir, diz a tia com alegria

cansar de irritar, chorar de calar
enganar de consolar
aurora quer esquecer o ler
aurora quer morrer
aurora quer cantar.

A DES ... ESPERA



o equilibrista equilibra-se em posição difícil
o equilibrante é o que equilibra
a equilibração é a arte do equilíbrio
quem é equilibrado tem equipolência
sofre da doença da ausência da demência
de quem tem paciência.

a espera é demora, para quem quer agora.
porquê esperar e não espernear
o esperançoso receoso e temeroso teme em falar
abafa o tormento e não deixa de esperar.

não entende a razão da demora.
o que importa é o saber de ter ou ser
tanto desespera que não dá pela hora
de conhecer.

satisfação por fim, ou não.
tudo termina mal ou bem
o esperançoso, esse também
a esperança foi-se embora na boca do canhão.

domingo, 26 de abril de 2009

M. C. ESCHER

AS NARRATIVAS EM IMAGENS

As histórias são contadas muito pelas imagens. A partir de um peixe mais ou menos agressivo ou de uma ave mais audaz, Escher é genial na forma como constroi o drama narrativo. A utilização de padrões regulares que tanto utiliza foi a base inspiradora deste trabalho. As transformações ou metamorfoses das formas e das cores obedecem a um padrão prédefenido. O génio continua ser Escher. A inspiração também. Os grandes mestres são mesmo assim : suscitam encontros sempre diferentes e únicos com a arte . Oferecem-nas aos outros como pedras preciosas dadas aos joalheiros : agora façam, experimentem, rasguem, risquem mas não desistam.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

PERDER A REVOLUÇÃO


Tinha nove anos. Era a idade que tinha, nem mais, nem menos, no 25 de Abril de 1974.
Na altura revoltei-me imenso : primeiro por não ter mais idade e não poder ir para o Largo do Carmo, tendo ficado o dia em casa. Segundo, não entender como depois de tantos anos à espera, o meu pai tivesse escolhido essa data para não estar em Portugal.
Ou seja, para mim na altura perdemos a revolução, eu e o meu pai.
A história, enquanto ciência, é a única a quem reconheço o critério rigoroso de análise da vida dos homens. Aos poetas e aos artistas também. Não obstante, as histórias pessoais são as que validam os factos. E nos fervores revolucionários as pessoas, individualmente entendidas são tomadas de uma "polis" rigorosa que fazem parecer jantares familiares ou reuniões de amigos em verdadeiras assembleias de senado. A esta classe de senadores eu fui assistindo como observadora/interventora, sobretudo quando era necessário colar alguns cartazes.
Este pequeno postit não é mais do que o meu 25 de Abril. Imperfeito, incompleto , faccioso, claro que sim. É a minha história do dia em que não tive aulas porque houve uma revolução em Portugal. Do que então aprendi e mais tarde descobri enforma ainda hoje a minha forma de ver e de pensar as coisas para mim mais importantes : o valor supremo da humanidade e o bem maior da liberdade.
Os dias quando nascem de facto não são todos iguais. Aqueles que nos marcam para sempre merecem um carinho especial. Tal como D. Quixote que li alguns tempos depois. As lições da capacidade da felicidade e do sonho nunca devem ser esquecidas mesmo que não passem de utopias utópicas que perseguimos durante toda a nossa vida.

O MEU LIVRO


“Escreve, se puderes, coisas que sejam tão improváveis como um sonho, tão absurdas como a lua-de-mel de um gafanhoto e tão verdadeiras como o coração simples de uma criança”

Ernest Hemingway


No dia Mundial do Livro recebi esta frase . Não pude deixar de a partilhar.


Desde já agradeço aos amigos do escreverescrever pelo óptimo presente.


E assim, eu vou escrever, não como o Hemingway, nem como todos os outros que li e que ainda lerei e com quem vivi e partilharei dos momentos mais belos da minha existência.


Vou escrever, escrevendo como só eu sei.

É esta a maravilha da escrita e da leitura. Com elas assumimos identidades verdadeiramente únicas e sublimes. Contamos e lemos histórias, apenas isso.


Nos campos verdes os passarinhos são azuis.

os rapazes bebem cervejas e fumam cigarros.

Epidermes, derme, acnes, cremes para os ouvidos...quis.

Os ouvidos ouvem os delírios dos homens e dos carros.

Os lirios amarelos são miudinhos como os mindinhos dos homens e dos rapazes também.

Os morteiros do Paul são Shyami...quis

Impotência, potência, prepotência dos cigarros,

dão prazência e fazem mortandência.

No parque os bebés e as mulheres pulam as cercas com prudência.

As Hienas tão pouco. Bebem do coco com paciência.

No topo do bosque, topo com folhas caídas com displicência.

Foi um elefante que ali passou com presencia.


Xana, 23 de Abril de 2009, Um Jardim em Lisboa.


quarta-feira, 22 de abril de 2009

A SABEDORIA DOS POETAS




a artista mordisca a ceia de mansinho
arroja olhares e risinhos miudinhos

beijo-lhe a mão com apreço e devoção

acato com júbilo o escárnio da rejeição
só não vi a lágrima desertora da solidão



Nota : este trabalho deriva de uma conferência ontem na Gulbenkian.

O tema era a solidão e a velhice.

A mestria e a sabedoria do escritor António Lobo Antunes.

Os tecnocratas renderam-se ao "riso dentro duma lágrima".

Eu também.